O Sal da Língua

Sons organizados de forma a exprimirem uma grande variedade de emoções.

The Notwist, The devil, you + me

Não vou estar com rodeios. Este é para mim um dos melhores discos de 2008 até agora. É sobretudo de psicadelismo e de dream pop que é feito este The devil, you + me. Os alemães The Notwist vestiram já várias peles desde a fundação em 1989, muito em função da rotatividade dos membros da banda e das várias influências externas que sofreram ao longo dos anos. Curiosamente, trata-se de uma banda fortemente influenciada pela música electrónica, mas soa tudo tão orgânico, tão humano, que mal dá para reparar no detalhe. Neon Gold ficará certamente para a história da banda como o disco da afirmação, tal o poder e a capacidade demostrada pela banda. The devil, you + me traz todas as características de Neon Gold, com as necessárias alterações decorrentes da passagem dos anos: seis, mas propriamente. De salientar os arranjos instrumentais que intercalam a voz de Markus Acher, que falam tanto como as próprias letras. Sobram momentos contemplativos de beleza rara. Essencial neste ano.

Nota de Sal: 9,5/10
Referências: Archive, Four Tet

Santogold, Santogold

Eis um dos discos (e dos artistas, já agora) mais curiosos do ano. Seria fácil considerá-la a M..I.A. de 2008, mas o passado de Santi White exige um pouco mais de atenção. Já foi representante de artistas numa editora, foi também produtora e, mais recentemente, foi líder dos Stiffed, banda de punk ska. As influências africanas de Santi são evidentes ao longo do disco e misturam-se e remisturam-se na perfeição com as tendências em voga da música pop electrónica (em que M.I.A. é figura de vanguarda). O êxito deste disco de estreira de Santogold deveu-se em muito ao peso da imprensa musical baseada na Internet e aos blogues musicais. É filha adoptiva dos melómanos cibernautas e daí ter sido recebida com tanto carinho aqui n’O Sal da Língua.

Nota de Sal: 8/10
Referências: M.I.A., Noisettes

Jim Noir, Jim Noir

Excelente regresso de Alan Roberts (aka Jim Noir) neste que é o sucessor de Tower of Love. Este segundo registo é ainda mais electrónico, utilizando até ao limite sintetizadores, pianos e pianolas que dão forma a este aglomerado de pop psicadélico absolutamente delicioso. Foi como se Eanie Meany (tema fetiche de Tower of Love) tivesse sido utilizado como mote para todo um novo disco. O multi-instrumentalismo excêntrico de Noir está em grande forma, agora com contornos “espaciais”. Apesar de se tratar de um bom disco, fica a sensação de que o álbum maior está ainda para chegar. Entretanto, este “Jim Noir” continuará a rodar por estes lados com insistência.

Nota de Sal: 7/10
Referências: Pop Levi, Badly Drawn Boy

I Am Kloot, Play Moolah Rouge

Play Moolah Rouge teve a particularidade de ter sido disponibilizado em primeiro lugar aos fãs que atenderam os concertos da banda durante a digressão de Novembro do ano passado. Um mimo bem interessante, já que o disco só foi posto oficialmente à venda em Abril último.

Os I Am Kloot fazem parte da mesmo frequência sonora de Manchester que deu notoriedade a projectos da dimensão dos Doves e, principalmente, dos Elbow. Guy Garvey participou mesmo na gravação de Natural History, disco de estreia do Kloot, em 2001.

Play Moolah Rouge dá sequência natural ao rock épico de instrumentalização minimalista (tanto quanto um trio de guitarra, baixo e bateria o permite), de canções larger than life em que os momentos mais fortes são feitos, frequentemente, de voz e piano ou voz e guitarra. É esta intensidade e dramatismo que são mais fascinantes nos I Am Kloot e que os tornam numa banda impar. Someone like you ou At the sea, por exemplo, são temas desarmantes, de rendição completa. Melodias que tocam aqueles nervos interiores bem disfarçados que fazem baixar todas as barreiras invisíveis. Para mim foi uma grande surpresa, já que desconhecia os discos anteriores da banda. Grande disco.

Nota de Sal: 8/10
Referências: Elbow, Starsailor

The Kooks, Konk

Eis o famigerado segundo disco para uma das grandes esperanças britpop actual do Reino Unido. Para além da pressão associada a este “pesado” número editorial, juntou-se algum mal estar pelas constantes entradas e saídas da banda de Max Rafferty, baixista que está com a banda desde o início. A isto, acrescente-se a juventude latente da banda: a receita para um segundo disco aquém das expectativas estava encontrado.
Os Kooks são escondem as suas intenções. Fazem questão de criar temas e melodias simples, completamente pop, em que os relacionamentos amorosos são uma constante. Esta conjugação tornou-os especialmente apetecíveis para o público feminino, mas são os próprios que garantem que têm também muitos homens como fãs. A referência de composição constante são os Beatles, existem mesmo semelhantes de interpretação evidentes. Os temas de Konk (nome do estúdio onde o disco foi gravado) são solarengos, com guitarras bem melódicas a prometer dias ainda melhores. O que até vem a calhar, dada a proximidade do Verão.
Pode ser um disco apetecível nos momentos certos, mas Konk é apenas isso: um conjunto de temas orelhudos feitos numa base pop-rock despretensiosa. É evidente que este conjunto de factores pode tornar o disco bem sucedido em vendas e com airplay garantido. E bem feitas as contas, isso não tem nada de mal.

Nota de Sal: 6/10
Referências: Arctic Monkeys, The Fratellis

Carolina Drama, The Raconteurs

Grande momento dos The Raconteurs, em mais uma prova de que Jack White é uma das figuras maiores do rock da actualidade, num dos temas que compõe o recente Consolers of the Lonely. De notar o crescendo dos arranjos que acompanha o desenvolver do drama doméstico. E não é demais referir que nos Stripes esta intensidade e complexidade melódica raramente são conseguidas.

I’m not sure if there’s a point to this story
But I’m going to tell it again
So many other people try to tell the tale
Not one of them knows the end

It was a junk-house in South Carolina
Lived a boy the age of ten
Along with his older brother Billy
And a mother and her boyfriend
Who was a triple loser with some blue tattoos
That were given to him when he was young
And a drunk temper that was easy to lose
And thank god he didn’t own a gun

Billy woke up in the back of his truck
Took a minute to open his eyes
He took a peep into the back of the house
And found himself a big surprise
He didn’t see his brother but there was his mother
With her red-headed head in her hands
While the boyfriend had his gloves wrapped around an old priest
Trying to choke the man

Billy looked up from the window to the truck
Threw up, and had to struggle to stand
He saw that red-necked bastard with a hammer
Turn the priest into a shell of a man
The priest was putting up the fight of his life
But he was old and he was bound to lose
The boyfriend hit as hard as he could
And knocked the priest right down to his shoes

Well, now Billy knew but never actually met
The preacher lying there in the room
He heard himself say, “That must be my daddy”
Then he knew what he was gonna do
Billy got up enough courage, took it up
And grabbed the first blunt thing he could find
It was a cold, glass bottle of milk
That got delivered every morning at nine

Billy broke in and saw the blood on the floor, and
He turned around and put the lock on the door
He looked dead into the boyfriend’s eye
His mother was a ghost, too upset to cry, then
He took a step toward the man on the ground
From his mouth trickled out a little audible sound
He heard the boyfriend shout, “Get out!”
And Billy said, “Not till I know what this is all about”
“Well, this preacher here was attacking your mama”
But Billy knew just who was starting the drama
So Billy took dead aim at his face
And smashed the bottle on the man who left his dad in disgrace, and
The white milk dripped down with the blood, and the
Boyfriend fell down dead for good
Right next to the preacher who was gasping for air
And Billy shouted, “Daddy, why’d you have to come back here?”
His mama reached behind the sugar and honey, and
Pulled out an envelope filled with money
“Your daddy gave us this,” she collapsed in tears
“He’s been paying all the bills for years”
“Mama, let’s put this body underneath the trees
and put Daddy in the truck and head to Tennessee”
Just then, his little brother came in
Holding the milk man’s hat and a bottle of gin singing,

Well now you heard another side to the story
But you wanna know how it ends?
If you must know the truth about the tale
Go and ask the milkman

Estado d’Alma #21

There’s a quiet place in my city mind
I drift out there from time to time
Like when I don’t know how
And when I don’t know when

There’s a quiet room
But I can’t sleep
There’s a dark spooky fog coming in from the street
And when I gasp for air
I stray away to where
There’s a soothing void for me to share

Wounded soldiers
Hurry around my yeard
O but the only place in the world
Where my senses sleep
And my soul leaps
Into solid control

I heared a man went mad
When he checked under his hat
For the piece of mind that he never had
And when he found the space
They call the quiet place
He decided to stay
And since that very day

There are wounded soldiers
That hurry around his yard
O but the only place in the world
Where my senses sleep
And my soul leaps
Into solid control

I stop I do not return
I try not to become frightened of the light

It’s like an aspirin for blues
Like an umbrella for dark moods

And when this peace is all mine
And when I stand still in time
Oh baby baby I love it when
that happens to me
And when this peace is all mine
And when I stop and look behind
Girl if I would loose you would I cry?

The Quiet Place In My City Mind, Zita Swoon (2001)

The Slip, Nine Inch Nails

Os Nine Inch Nails disponibilizaram recentemente no seu website oficial o novo disco de originais, The Slip, para download gratuito. As novidades não ficam por aqui: a crítica tem sido unânime em considerar este um dos discos maiores da carreira dos NIN, o que torna a notícia ainda mais apetecível. The Slip está disponível em diversos formatos de ficheiro, alguns dos quais de qualidade superior ao CD. O site oferece ainda a possibilidade de remistura e partilha dos temas do disco, aqui. O disco estará também disponível em formato físico.

“Thank you for your continued and loyal support over the years - this one’s on me”, Trent Reznor dixit.

Take 11


Old Rock ‘n’ Roll Radio: Dead Combo
Touch ME I’m Going To Scream: My Morning Jacket
What U Gonna Do: Jim Noir
Hurricane: Jamie Lidell
Spit At Stars: Jack Peñate
Lucio Starts Fires: Joe Lean And The Jing Jang Jong
Fast Blood: Frightened Rabbit
Kelly Watch The Stars (Live BBC 1998): Air
Outro Futuro: Balla
Gravity: The Notwist
Anne: Santogold
Wondrous Place: The Last Shadow Puppets
Malcolm: Merz
At the sea: I Am Kloot
Bubbles: James
Burro: Beck
Guns of Brixton: Calexico

Jackpot Tuga

Este post é dedicado a dois grandes lançamentos portugueses de Abril.

Primeiro, o terceiro registo de originais da dupla Dead Combo, desta vez num disco mais expansivo, arrojado, multi-instrumentalista, universal, sem nunca perder a face portuguesa (e lisboeta, já agora) que completa o conceito da banda. Os DC são únicos na sonoridade que apresentam e merecem todo o destaque que lhes seja dado. Apesar das características portuguesas que não enganam, estou certo de que facilmente seriam colados às tendências alternative country norte-americanas ou à nova folk europeia de origens parisienses/balcânicas que tanto está na moda. Lusitânia Playboys, um dos momentos altos do ano aqui n’ O Sal da Língua.

(Sopa De Cavalo Cansado, Dead Combo)

O segundo disco é a retrospectiva de oito anos dos Balla, o projecto premium de Armando Teixeira. Os Balla são o centro do génio criativo de Armando e é aqui que mais brilha. O espírito Balla tem funcionado tanto enquanto conceito de disco como no formato de single e este Resumo 2000/2008 é, por isso, uma bela colecção de singles. Atempado para quem tem acompanhado os Balla e útil enquanto primeira abordagem. Atenção também às letras, não é todos os dias que se canta e escreve tão bem em português. O site da editora dos Balla disponibiliza gratuitamente cinco temas tocados em versões minimalistas dos Balla, aqui.

(O Fim da Luta, Balla)

Ambos os discos destacam-se também pelo trabalho fora-de-série no formato físico dos CDs. Boa apresentação, boas fotos (especialmente no caso dos Dead Combo) e uma edição audio complementada por uma edição vídeo (nos Dead Combo) e por um CD extra com versões alternativas (nos Balla) que valorizam a compra neste formato. Parabéns a ambos.

Jamie Lidell, Jim

Confesso que só recentemente este nome e este disco me chegou às mãos. As referências eram boas na generalidade e procurar artistas novas com abordagens originais é definitivamente o meu fraco. Encontrá-los é uma história completamente diferente, mas, às vezes, acontece. Jim, de Jamie Lidell, é um portento soul e funk. Ao vivo, Lidell é um one man show, acompanhado apenas por uma beatbox. Soul orgânica? Aparentemente sim e com que resultados!

Nota de Sal: 8/10

Merz, Moi et Mon Camion

British crooner por excelência que peca apenas pela fuga constante da luz da ribalta e da notoriedade. A pouca assiduidade editorial com que Merz optou por gerir a sua carreira também ajudou a construir o mito de artista pouco dado a colaborar com a indústria. Moi et Mon Camion é feito da electro-folk característica de Merz, alter ego de Conrad Lambert. Os dez temas que compõem este terceiro disco de originais são suaves, feitos de guitarras dedilhadas com melancolia e ambientes electrónicos adequados. As referências são curiosas, desde os clássicos Beatles ou Beach Boys, com toques de Tunng ou Maps.

Nota de Sal: 7/10
Referências: Tunng, Maps

Scarlett + Bowie = Waits?

Enquanto a emissão não retoma a normalidade, deixo em forma de compensação um dos temas que fará parte de Anywhere I Lay My Head, o disco de estreia de Scarlett Johansson, integralmente composto por originais de Tom Waits e ainda um original de Scarlett. Trata-se de Falling Down (sim, o mesmo onde Waits canta sobre “Scarlett and me”) e tem a participação de David Bowie.

Estado d’Alma #20

Porque sei e sinto que por ti, e graças a ti, serei uma pessoa melhor.

My darling child
My darling baby
My darling child
You gave life to me
My darling child
My darling baby
My darling child
You came and saved me
My darling child
My darling baby
My darling child
God gave you to me
Me little ninja
My little dancer
Me little streetfighter
Me little chancer
Me lovely boy
Me lovely babby
My pride and joy
Me little puppy
Me little wolf
Me little lamby
My favourite boy
My angel babby

Me little ninja
Me little dancer
Me little streetfighter
Me little chancer
Me love me boy
Me love me babby
My pride and joy
Me little puppy

My Darling Child, Sinéad O’Connor (Universal Mother, 1994)

Estado d’Alma #19

Já está entre nós.

Eu tenho um anjo
Anjo da guarda
Que me protege
De noite e de dia
Eu não o vejo
Eu não o ouço
Mas sinto sempre a sua companhia

Eu tenho um guarda
Que é um anjo
Que me protege
De noite e de dia
Não usa arma
Não usa a força
Usa uma luz com que ilumina a minha vida

Ele não, não usa arma
Ele não, não usa a força
Usa uma luz com que ilumina a minha vida

Anjinho da Guarda, Três Tristes Tigres, 2001 (original António Variações, 1983)

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