O Sal da Língua

Sons organizados de forma a exprimirem uma grande variedade de emoções.

Archive for June, 2007

Nearly God, 1996

 

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Nearly God é um dos segredos mais bem guardados da música dos anos 90. Produzido por Tricky, pode ser considerado um primeiro arranque para a extraordinária sequência de álbuns que marcaram a primeira metade da carreira deste percurssor do trip-hop. Composto por 12 faixas consideradas pelo próprio como demos, torna-se um ensaio para o fora de série Maxinquaye, este sim o seu primeiro disco de originais oficial e parte do triunvirato de ouro do trip-hop dos anos 90, completado por Blue Lines dos Massive Attack e por Portishead dos Portishead. Mas Nearly God é especial porque inclui participações e co-autorias de uma série de artistas em início ou em fases especialmente profícuas da carreira, como são Björk (com Post recém-lançado), Terry Hall, Alison Moyet, Cath Coffey, Neneh Cherry e Martina Topley-Bird (esta a primeira musa de Tricky, que virá mais tarde a ter a sua própria carreira a solo). Nearly God é um tesouro por revelar a cada faixa, pleno de inspiração e talento em bruto. Tricky há muito que deixou de estar na vanguarda da exploração musical, mas importa notar que já lá esteve e que enquanto esteve foi genial.

DL

nunoromano

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Glorioso ruído

 

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Carnavas, editado em 2006, só chegou a este lado do blogue esta semana. Foi um dos grandes álbuns do ano passado e, infelizmente, passou-me completamente ao lado. Melodicamente ruidosos ou ruidosamente melódicos, não interessa. Quando damos por nós, eis que estamos a meio de ser oniricamente transportados por arranjos que ora são extremamente simples e baseados em voz ou guitarra ora baseados em bateria forte e distorção de guitarras. Não, não são como os Sonic Youth. Os Silversun Pickups conseguiram um som próprio e essa é a sua maior vitória.

DL

nunoromano

Transformer, 1972

 

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Disco emblemático para a fase glam rock da década de 70, Transformer tornou-se numa referência musical mais abrangente e a maioria dos temas presentes neste disco fazem parte do imaginário musical e das referências de muitas bandas da actualidade. Foi o primeiro disco de Reed após a saída atribulada dos The Velvet Underground em 1970 (na verdade, foi o segundo, já que “Lou Reed” de 1971 se limitava a sessões de gravação de temas dos Velvet) e pretende ser uma imagem de vivências até então ocultas e afastadas do meio musical da época. Drogados, prostitutas, misfits em geral são as personagens principais de temas como o celebrado Walk on the Wild Side, Perfect Day ou Vicious. Produzido por David Bowie e Mick Ronson, marcou o regresso de Reed à ribalta, às boas graças da Factory de Warhol e serviu de apresentação a um público mais vasto. Conta a lenda que Bowie, entusiasmado com o sucesso de Transformer, propôs a Reed a gravação de um disco mais pop. O resultado foi (literalmente) um murro no olho, três décadas de relações cortadas e o surgimento em 1973 de Berlin, o disco mais negro da carreira de Reed, conta a história de um casal de drogados apaixonados, e um dos mais obscuros da história da música. Reed nunca se libertou realmente do sucesso de Transformer e construiu uma carreira fundada na procura da libertação. Só o conseguirá em 2003 com The Raven (curiosamente o disco que marca o reatar de relações com Bowie através da participação deste em Hop Frog), mas essa é outra história.

DL

nunoromano

E o regresso de Perry

 

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Continuando com compositores que procuraram inspiração e novos caminhos no alternative country, chegamos ao próximo disco de Perry Blake, Canyon Songs. Desde California (2002) que o irlandês Blake tem procurado as sonoridades rock e country da América do Norte, deixando para trás a nebulosa melancolia das primeiras gravações (alguém ainda se lembra de Anouska?). Canyon Songs está repleto de melodias bem conseguidas e de arranjos cheios de bom gosto. Ideal para longas viagens de Verão.

DL

nunoromano

O regresso de Ryan

 

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O título quase parece sugerir que houve um tempo de maturação entre a fase criativa e de produção e o lançamento de Easy Tiger. Ryan Adams tem o dom da criação compulsiva de música e a editora tem-lhe feito sempre a vontade. O resultado é um incrível registo discográfico para a idade que tem, a solo ou com os The Cardinals. Desta feita, estamos a meio de Junho e 2007 ainda não tinha visto um novo trabalho de Adams. Se houve maturação, mal se nota. Os temas quase parecem ter sido gravados à primeira, o que no caso de Ryan Adams, é bom, muito bom. Depois do excelente 29, em que a faceta alternative rock/country aparece ainda mais definida, eis Easy Tiger. Inclui temas antigos e outros criados durante as digressões de 2006 e destaca Ryan Adams como um dos compositores rock a (continuar) a seguir nos próximos anos.

DL

nunoromano

War Stories, agora completo

 

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Depois do EP de prelúdio, chega enfim War Stories, dos Unkle de James Lavelle e Tim Goldsworthy. Confirma as indicações favoráveis de Night’s Temper e consegue ir bastante mais além. Revelam-se as participações bem enquadradas de 3D dos Massive Attack, de Autolux e de The Duke Spirit, e surpreendemo-nos com Ian Astbury (The Cult) e Josh Homme (Queens of the Stone Age). Unkle é incatalogável e é assim que melhor podem ser apreciados. Largam definitivamente o estigma do trip-hop e é com facilidade que estilos musicais, ritmos e estados emocionais se intercalam e somos obrigados a confirmar constantemente as participações que cada novo tema traz. É um disco especial e um dos grandes de 2007 até ao momento.

DL

nunoromano

Unknown Pleasures, 1979

 

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Concebido em Abril de 1979, Unknown Pleasures é o primeiro de quatro álbuns de originais dos Joy Division. Era diferente de tudo o que estava a ser feito na época, num país devastado pelo furacão musical que foi o punk. Recusaram-se a entrar na euforia extravagante e plural dos Sex Pistols e dos The Clash, e mostravam-se instrospectivos e sombrios. Agressivos, mas doces. Caóticos, mas deslumbrantes. A postura epiléptica e tresloucada de Ian Curtis fez o resto. Uma legião de fãs que encontrou conforto no preto e no cinzento até hoje. A capa de concepção minimalista de Unknown Pleasures é da responsabilidade de Peter Saville e é a imagem gráfica astronómica de 100 impulsos consecutivos emitidos por uma estrela à beira da morte. Agora, também pode ser vista assim.

DL

nunoromano