O Sal da Língua

Sons organizados de forma a exprimirem uma grande variedade de emoções.

Archive for May, 2008

The blues jukebox

Chan paira no palco como que a saltitar a voz por cima das notas grandiosas que saem dos instrumentos dos Dirty Delta Blues. Assim que termina, coloca-se de lado como que a demostrar que é para aquela banda fantástica que devemos sobretudo olhar, apesar de todo o fanatismo juvenil que por vezes se coloca em cima de determinados músicos (ver também a febre The National). Chan assume-se em palco como membro de uma banda e não como uma qualquer diva de trazer por casa. Ela é, de facto, uma diva mas por ser o que é e não por ser aquilo que querem fazer dela.

Chan não precisa de grandes floreados vocais para brilhar, nem de estar numa grande noite de inspiração. Nasceu com aquele timbre de voz adequadíssimo para os blues e não pode fazer muito quanto a isso. Nasceu também com uma excelente capacidade interpretativa, o que resulta numa combinação demolidora.

Estranhamente, ficou a ideia de que o público estava à espera de mais Greatest e de menos Jukebox. Mas foi tão bem assim.

Palavra final para os Dirty Delta Blues. Foi grande a “contratação” que Chan fez em Judah Bauer para a guitarra e para os arranjos. O ex-companheiro de Jon Spencer nos Blues Explosion é um mestre de produção de rock e blues e grande no desempenho ao vivo.

Setlist:

Don’t Explain
Woman Left Lonely
Silver Stallion
New York
Lost Someone
Dreams
Lord, Help The Poor & Needy
Dark End of the Street
She’s Got You
Metal Heart
Making Believe
Aretha, Sing One For Me
Ramblin’ (Wo)Man
Blue
Where Is My Love
The Moon
The Greatest
Lived in Bars
Life of the Party
Could We
Satisfaction
Angelitos Negros
I’ve Been Loving You

Hoje à noite, Coliseu

Metal Heart, Cat Power

Bem bom

Têm sido raros os momentos em que o projecto de vida minúsculo (já faz um mês…) que nos tem tomado todo o tempo e mais algum permite aquilo a que simpaticamente podemos chamar soltura.

Numa dessas ocasiões passámos por uma FNAC e encontrámos a tocar ao vivo os multinacionais MAU (Man And Unable). Conhecia-os de breves passagens na rádio e na televisão e houve qualquer coisa que ficou. Esta curta experiência de os ver ao vivo suscitou curiosidade. Apesar de bastante novos, havia uma centelha de “artistas” em palco, como se estivesse a ver o work in progress de uma banda que regressava a casa após o reconhecimento internacional. Existe um talento notório que permite alguns excelentes arranjos, letras razoáveis a explorar melhor (é pena não constarem do CD…), boa interpretação dos dois vocalistas e saber estar em palco. O melhor veio depois. É claro que não resisti à compra do CD e, gralhas corrigidas a lápis-de-cor à parte, é um belo trabalho que está aqui, feito de loops electrónicos acompanhados pelo lado orgânico guitarra/bateria que lhes cai muito bem, muito ao estilo Klaxons e Foals. Boa produção de Quico Serrano, que captou na essência aquele que é o desempenho em palco da banda.

Aqui fica a amostra, Bad Egg Dead:

PS. Eu sei que a lista Em Escuta se está a acumular, mas garanto que tudo está realmente em escuta e que os textos já têm forma e vida. Falta “só” a transposição para o blogue. O tempo para escrever não é muito, mas estou em reorganização. Agradeço a paciência…

Estado d’Alma #22


Cuba (1979), Dead Combo

Take 12

01 We will walk through walls: Electric President
02 California Dreamer: Wolf Parade
03 Alphabet: The Notwist
04 The Youth: MGMT
05 So Nice So Smart: Kimya Dawson
06 Lon Chaney: Vetiver
07 Talking Bird: Death Cab For Cutie
08 Of Monsters & Heroes & Men: James
09 Forever After Days: The National
10 Popular Culture: dEUS
11 Giving up the hero: Zita Swoon
12 The Fix: Elbow
13 New Woman, New Man: Madrugada
14 Homelife: Adam Green
15 Title Music From Merchant Ivory’s Film “The Householder”: Jyotirindra Moitra & Ustad Ali

The Notwist, The devil, you + me

Não vou estar com rodeios. Este é para mim um dos melhores discos de 2008 até agora. É sobretudo de psicadelismo e de dream pop que é feito este The devil, you + me. Os alemães The Notwist vestiram já várias peles desde a fundação em 1989, muito em função da rotatividade dos membros da banda e das várias influências externas que sofreram ao longo dos anos. Curiosamente, trata-se de uma banda fortemente influenciada pela música electrónica, mas soa tudo tão orgânico, tão humano, que mal dá para reparar no detalhe. Neon Gold ficará certamente para a história da banda como o disco da afirmação, tal o poder e a capacidade demostrada pela banda. The devil, you + me traz todas as características de Neon Gold, com as necessárias alterações decorrentes da passagem dos anos: seis, mas propriamente. De salientar os arranjos instrumentais que intercalam a voz de Markus Acher, que falam tanto como as próprias letras. Sobram momentos contemplativos de beleza rara. Essencial neste ano.

Nota de Sal: 9,5/10
Referências: Archive, Four Tet

Santogold, Santogold

Eis um dos discos (e dos artistas, já agora) mais curiosos do ano. Seria fácil considerá-la a M..I.A. de 2008, mas o passado de Santi White exige um pouco mais de atenção. Já foi representante de artistas numa editora, foi também produtora e, mais recentemente, foi líder dos Stiffed, banda de punk ska. As influências africanas de Santi são evidentes ao longo do disco e misturam-se e remisturam-se na perfeição com as tendências em voga da música pop electrónica (em que M.I.A. é figura de vanguarda). O êxito deste disco de estreira de Santogold deveu-se em muito ao peso da imprensa musical baseada na Internet e aos blogues musicais. É filha adoptiva dos melómanos cibernautas e daí ter sido recebida com tanto carinho aqui n’O Sal da Língua.

Nota de Sal: 8/10
Referências: M.I.A., Noisettes