O Sal da Língua

Sons organizados de forma a exprimirem uma grande variedade de emoções.

Archive for June, 2008

Estado d’Alma #24

A Maria vai nascer algures esta noite. Que tenha uma vida linda.

Esta é para ela.

Ára Bátur, Sigur Rós

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Quatro bons regressos e um infeliz acidente

A propósito do fantástico Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust dos Sigur Rós, ocorreu-me que não falei ainda de alguns bons regressos à edição em 2008 de bandas, não direi históricas, mas já com história. Para colmatar a falha, cá vai, em modo resumido:

Podemos começar por The Hungry Saw que, como já alguém referiu, é pura filigrana. Tindersticks em grande forma, a assumirem o lugar que merecem neste género musical que inventaram e reinventaram. Ah, e candidatos a capa do ano.

9/10

Quem regressou também foram os dEUS. Confesso que tolerei num silêncio complacente o tiro ao lado que foi Pocket Revolution, mas exultei com Vantage Point. Metade do disco é dEUS de volta aos velhos tempos e só é pena que estejam a apostar nos singles errados. Tentem antes Oh Your God ou Eternal Woman, são puro dEUS clássico (que frase perigosa, tirada do contexto…). Dará para matar a saudade.

8/10

Este foi um regresso estranho. Os James foram capazes de encerrar a carreira em beleza, com o espantoso Pleased to Meet You, e não precisavam de voltar a tocar num instrumento. Mas Hey Man foi discretamente anunciado e já está à disposição de todos. Resultado: um regresso exuberante aos James do início da carreira, com secções de metais mais próprias de uma banda pop adolescente e refrões de levantar estádios. Felicíssimo regresso.

8/10

E para o fim, Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust. É a terceira vez que o escuto e as palavras “disco do ano” não me saem da cabeça. Os Sigur Rós introduzir cor nas músicas, foram capazes de respirar fundo. E acho que não preciso de dizer mais nada.

10/10

E para o fim, o pior. O que Third teve de bom foi acabar de vez com as expectativas acerca do famigerado novo disco dos Portshead, tantas vezes anunciado e tantas vezes adiado. Agora escusamos de ansiar por ele, já cá está e é o que é. É tanto ou tão pouco que a banda cancelou a digressão e suspendeu o projecto da banda até ao próximo ano. Acho que fica tudo dito. Um fiasco total para um disco intragável.

4/10

Viva

Esta foi a surpresa que encontrei hoje ao chegar ao dashboard do blogue. Depois de quase uma semana sem tempo para escrever (e tanta foi a música que ouvi que gritava por ser (d)escrita), cheguei ao blogue qual filho desavindo à procura de ser desculpado. Pois o Sal da Língua registou o número máximo de visitas nesta última sexta-feira, 221 almas passaram por cá, numa semana em que tão mal me portei. Obrigado, claro. Mais ainda porque este número ajudou a ultrapassar o total de 10 mil visitas em pouco mais de cinco meses, o que não deixa de me fazer sentir um nada orgulhoso.

Tudo isto numa semana em que soube que serei em breve repetente na mui nobre arte da doçaria em rádio. Uma delícia. Os ingredientes estão preparados e há uma nova viagem por fazer.

Martina Topley Bird, The Blue God

Segundo disco de originais para aquela que foi a primeira e, possivelmente, a mais feliz das musas de Tricky, quando Tricky era alguém que se podia dar ao luxo de ter musas. A doce Martina não consegue evitar que, ainda hoje ao ouvir temas dos seus discos, os mais atentos não recordem o fulgor das músicas de Maxinquaye ou de Angels with Dirty Faces em que Martina era a vocalista. Mas os tempos são outros e The Blue God tem vida própria. Há vida depois de Tricky, portanto.

The Blue God é romântico e alegre, com canções cheias de personalidade. Carnies, por exemplo, é um hit instantâneo e é pena não estar a rodar com a frequência que merecia por cá.

Nota de Sal: 7/10

Referências: Laika, Sneaker Pimps

Isobel Campbell And Mark Lanegan, Sunday At Devil Dirt

A bela e o monstro estão de volta. O destino quis que estas duas figuras de percursos tão afastados e distintos se juntassem em tempos e que fossem repetindo a façanha que é gravar discos que aliam a voz delicada de Isobel com o tom gravíssimo de Lanegan. Para quem não os está a reconhecer, Isobel Campbell esteve na origem dos Belle and Sebastian (banda caríssima para o Sal da Língua), enveredando depois por uma carreira a solo. Mark Lanegan é um veterano, ex-Screaming Trees e elemento ocasional dos Queens of the Stone Age, tendo agora mais um projecto paralelo nos Gutter Twins. Junto de Isobel encontrou um poiso de calma e tranquilidade, onde colocar a voz em dias de cansaço. A verdade é que gostou e comparece sempre à chamada de Isobel sempre que esta tem temas novos para lhe apresentar.

Desta vez, em Sunday At Devil Dirt, Isobel reservou para si um lugar de segundo plano, dando pleno destaque a Lanegan. Claro que existe aqui uma espécie de armadilha. É que segundo a própria Isobel, quase todo o disco gira em volta de figuras femininas, em que imaginário e intimidade estão lado a lado. E não deixa de ser interessante ser a voz de alguém como Mark Lanegan a dar corpo a estes temas.

Nota de Sal: 7/10

Bodies Of Water, A Certain Feeling

Confesso que muita era a curiosidade do Sal da Língua pelo sucessor de Ears Will Pop & Eyes Will Blink. Seriam os Bodies of Water capazes de prolongarem um género que, afinal, foram eles a criar? Ou cederiam à tentação de virar as agulhas e seguir por áreas musicais mais seguras? A resposta é simples e facilmente entendível à primeira escuta deste A Certain Feeling: o indie gospel está aqui para ficar. Esta banda multi-instrumentalista assume os coros agudos e os refrões exaltados na plenitude e eis que se seguem mais dez temas cheios de notas a roçar a arreliação melódica, mas tão bonitos que quase fazem chorar. Atenção que este choro é quase sempre eufórico, cheio de luz e sol, bem adequado a dar as boas vindas ao Verão. Pode ser ouvido em continuação a Ears Will Pop & Eyes Will Blink (que deixa sempre aquela vontade de ouvir em repetição) ou como apresentação ao universo Bodies of Water. Um dos favoritos da casa.

Nota de Sal: 8/10

Joan As Police Woman, To Survive

Joan Wasser regressa à gravação e edição de LPs com To Survive, disco que sobressai pelas texturas melódicas mais suaves que o anterior Real Life. Costuma-se dizer que há sempre uma fase em que os músicos se “despem” e tornam os discos mais intimistas e é possível que tenha sido este o caso de Joan. Não existem temas fulgurantes de intensidade como Eternal Flame ou I Defy, mas Joan mantém uma consistência razoável ao longo do disco, guardando o melhor para o final: o dueto com Rufus Wainwright em To America (só é pena fazer lembrar tanto Going to a Town de Release the Stars de Rufus…) e Furious, o tema mais catchy deste To Survive. Um bom segundo disco para uma carreira que começa a ser feita de consistência.

Nota de Sal: 6,5/10
Referências: St. Vincent, Laura Veirs