O Sal da Língua

Sons organizados de forma a exprimirem uma grande variedade de emoções.

Archive for Tricky

Ainda dois felizes regressos

Em jeito de continuação à abordagem aos discos de regresso de consagrados dos anos 90, têm estado em escuta Modern Guilt, de Beck e Knowle West Boy de Tricky. Ambos são regressos bem conseguidos para o Sal da Língua, eis alguns dos motivos, mais em detalhe:

8/10

Após o débil The Information, era maior o receio do que a expectativa para Modern Guilt. A fórmula mágica do mago Beck Hansen parecia ter esgotado. Numa época em que a utilização abusiva de samplers e a mistura caótica de géneros já não é novidade, The Information foi um disco perdido na tentativa que repetir qualquer coisa de irrepetível. Modern Guilt é, assim, a negação de The Information. Beck não procurar imitar-se nem repetir-se. Limitou-se a criar música pop bem construída, desta vez recorrendo menos ao sampling e dedicando-se mais à construção de melodias e à “forma” que cada tema iria assumir. Para isso contou com a colaboração de outro mágico na produção, Danger Mouse. Nas palavras de ambos, a produção foi bastante exaustiva, com os detalhes a serem levados ao extremo, mas sem causar cansaço na audição. Modern Guilt é um bom disco pop, que não inventa nem reinventa. E talvez seja esta a melhor conclusão a que Beck poderia chegar nesta fase da sua carreira, chegado que está ao décimo disco.

8/10

Há alguns anos que o rebelde da zona de Knowle West, em Bristol, está refugiado em Nova Iorque, em busca de novas fontes de inspiração e de uma mudança de ares. Isso não o fez esquecer as origens e tal reflecte-se bem o título que escolheu para o disco. A forma peculiar de Tricky se inspirar já é conhecida: a exposição da relação amorosa da altura é levada para o disco, em que a companheira participa nas vozes do disco. Aconteceu com Martina Topley-Bird no início da carreira (com quem viveu e teve um filho), passou por um italiana desconhecida em Vulnerable e chega agora a Lubna, com quem partilhou um relação antes e durante a gravação de Knowle West Boy. É engraçado verificar que os melhores discos de Tricky são os emocialmente mais fortes (Angels With Dirty Faces, Maxinquaye) e que isso esteve dependente da situação emocional do momento.

Knowle West Boy é o regresso de Tricky não à melhor forma, mas a uma forma muito aceitável. É um disco mais fresco, mais interessante do que Vulnerable ou Blowback, que reflecte as experiências pessoais e musicais num país novo, que tem tanto para dar ao nível da inspiração. Há até um tema, Joseph, em que participa um vagabundo poeta.

Apesar de não ser o disco revolucionário de que se espera de Tricky, Knowle West Boy é um disco inspirado e cheio de motivos de interesse.

Take 14

If It Rains: Robert Forster
Heretics (early version): Andrew Bird
Bacative: Tricky
Daisies, Cats And Spacemen (with Roya Arab): Leila
Brace Bulging Buoyant Clairvoyants: Wild Beasts
Love Like Semtex: Infadels
Gobbledigook: Sigur Rós
While the City Sleeps: Jeremy Jay
Lump Sum: Bon Iver
Moon Lake: Scout Niblett
Volcano: Beck
Comfy In Nautica: Panda Bear
Tonight The Streets Are Ours: Richard Hawley

Nearly God, 1996

 

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Nearly God é um dos segredos mais bem guardados da música dos anos 90. Produzido por Tricky, pode ser considerado um primeiro arranque para a extraordinária sequência de álbuns que marcaram a primeira metade da carreira deste percurssor do trip-hop. Composto por 12 faixas consideradas pelo próprio como demos, torna-se um ensaio para o fora de série Maxinquaye, este sim o seu primeiro disco de originais oficial e parte do triunvirato de ouro do trip-hop dos anos 90, completado por Blue Lines dos Massive Attack e por Portishead dos Portishead. Mas Nearly God é especial porque inclui participações e co-autorias de uma série de artistas em início ou em fases especialmente profícuas da carreira, como são Björk (com Post recém-lançado), Terry Hall, Alison Moyet, Cath Coffey, Neneh Cherry e Martina Topley-Bird (esta a primeira musa de Tricky, que virá mais tarde a ter a sua própria carreira a solo). Nearly God é um tesouro por revelar a cada faixa, pleno de inspiração e talento em bruto. Tricky há muito que deixou de estar na vanguarda da exploração musical, mas importa notar que já lá esteve e que enquanto esteve foi genial.

DL

nunoromano